Crítica: Caché (2005)

Caché
Michael Haneke, França, 2005
O mais recente trabalho do realizador austríaco sedeado em França está a ser muito bem recebido por toda a Europa, como já o havia sido o seu filme anterior, o nem sempre facilmente digerível La Pianiste, que trouxe mais uma vez aclamação à multi-facetada Isabelle Huppert.
Desta vez os protagonistas são outros.
Os também experientes Daniel Auteuil e Juliette Binoche representam um casal de classe média que se vê misteriosamente confrontado com umas cassetes vídeo que acabarão por lhes tirar o descanso e o conforto que o seu estilo de vida lhes permite.
Não deixa de ser curiosa a escolha do actor principal para representar uma personagem cujo pouco à-vontade e nervosismo latente vem ao de cima quando em presença de figuras de outras origens, visto ele próprio ter nascido na Argélia.
Podemos dizer que a presença europeia nesta ex-colónia francesa é a razão de fundo desta alegoria.
É comum a muitos países do Ocidente esta situação histórica de colonização de um país menos desenvolvido cujas novas gerações se estabelecem no antigo estado dominante e daí advêm muito frequentemente confrontos não apenas psicológicos como também físicos.
Os impactos mais profundos de Caché verificam-se ao nível da mente, perturbada por um mistério inconclusivo e pela esparsa explosão violenta que nos choca pela sua economia e imediatez.
Somos confrontados com imagens que por vezes duvidamos se serão a câmara de Haneke ou a do observador desconhecido, ou mesmo nós próprios, vouyers desta realidade quotidiana.
As mais de duas horas desta peça passam sempre com a dedicação da nossa atenção, invulgar numa produção europeia em que a estabilidade da camera e o silêncio constante são imagens de marca.
Caché inquieta pela sua crítica aguda mais do que pelo mistério intenso. Um excelente exercício sobre o medo que a diferença pode suscitar, o filme foi considerado o melhor do ano pela Academia Europeia de Cinema.
8/10

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