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quarta-feira, julho 15, 2009

Crítica: La Mujer Sin Cabeza (2008)


La Mujer Sin Cabeza
Lucrecia Martel, Argentina, 2008

Verónica não perdeu a cabeça. Pelo menos, não literalmente.
No entanto, um aparentemente irrelevante acidente de viação em que se vê envolvida submerge-a num estado de perturbação e alienação tal que poderíamos realmente afirmar que acima daqueles ombros nada existe.
Após esse momento marcante, cujas imprevisíveis consequências poderão abalar as fundações do seu quotidiano seguro, Verónica toma a decisão de regressar.
No entanto, esquecer o que ficou para trás mostra-se uma tarefa mais complicada do que à primeira vista poderia imaginar.
Dias a fio movimenta-se, e é movimentada, de forma arrastada, passando pelos que a rodeiam como se de um fantasma se tratasse, sintomático do vazio emocional subjacente.
Fascinante é que o consiga fazer sem que família, amigos e criados se apercebam do seu estado de apatia, virtuosismo atribuível à magistral direcção da realizadora e argumentista Lucrecia Martel.
Da relação extra-conjugal com o melhor amigo do seu marido à caricata situação no consultório onde exerce medicina em que se julga paciente, Verónica realiza mecanica e silenciosamente as actividades daquilo que o espectador, e também a própria graças à sua condição, descobre ser a sua rotina.
Mas à medida que Verónica procura reunir forças para establecer novamente uma relação com o mundo exterior, o destino aproxima-a perigosamente daquilo que ela quis deixar para trás, ameaçando apanhá-la de vez e trazê-la à fria e crua realidade.
Acompanhamos o desenrolar do argumento com a curiosidade aguçada pela abordagem rítmica adoptada, que, igualmente, nos permite apreciar a beleza das imagens capturadas.
Assemelhando-se a um exaustivo retrato do drama psicológico vivido pela personagem principal, o filme dissimula uma silenciosa, mas mordaz, crítica da actual sociedade argentina, rigidamente estratificada em classes económicas e étnicas, susceptível aos interesses da burguesia estabelecida.
É latente o desconforto da mulher do título, sublimemente representada por Maria Onetto, quando obrigada a permanecer junto daqueles que habitualmente a servem, bem como a ameaça de enraízamento dos comportamentos subservientes por estes demonstrados.
Inquisitivo, pertubador e poético, adjectivos acessíves apenas às obras de verdadeiros autores.

9/10

posted by Diogo Fonseca at 11:09

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