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sábado, março 25, 2006

A bela do dia: Jane


Sendo filha do lendário actor norte-americano Henry Fonda, foi mais que natural a integracção de Jane Fonda desde muito cedo na sétima arte. Começando com um conjunto de pequenas produções, apenas em 1968 ganharia reconhecimento com o papel principal da ficção científica psicadélica de Barbarella, hoje elevado ao estatuto de filme de culto.

O ponto alto da sua carreira chegaria três anos mais tarde, com Klute de Alan J. Pakula, que lhe valeria o Óscar de melhor actriz.

Aquele que é o primeiro numa "paranoia trilogy", completada por The Parallax View e All the President's Men, segue Bree Daniels, uma prostituta de luxo que se vê perseguida sem perceber o real motivo. Klute, mais do que na trama policial, foca-se na individualidade da personagem de Jane, uma mulher que quer mudar o seu estilo de vida, mas tem grandes dificuldades em criar laços afectivos. Um manifesto político ao mesmo tempo anti-institucional e feminista, o filme é o veículo perfeito para o desempenho perfurante de Jane Fonda, que na altura manifestara-se publicamente contra a intervenção norte-americana no Vietname, o que lhe valeria bastantes críticas e boicotes.

O final dos anos setenta marcariam a última fase relevante da sua carreira, antes de iniciar os seus célebres videos de fitness, culminando em mais uma vitória de um galardão da Academia por Coming Home.

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quarta-feira, março 22, 2006

Crítica: Together (2000)


Tillsamans
Lukas Moodysson, Suécia, 2000


O título reporta-se ao nome de uma comunidade de esquerda sueca dos anos setenta, em que oito adultos e duas crianças dividem a mesma casa e utilizam a mesma colorida carrinha. O colectivo é bastante sui generis, não só devido ás diferenças de personalidades mas também de ideias, mesmo dentro de uma ideologia liberal comum.
No entanto, a chegada da irmã de Göran, um dos membros, e dos dois filhos desta, provoca um abalo que porá em causa a razão de ser daquele grupo.
Este é o ponto de partida para uma série de situações, umas trágicas outras cómicas, mas sempre perturbantes, que nenhum dos envolvidos parece ter vivido antes.
No início, o filme mostra-nos o quotidiano na associação, através dos hábitos e querelas típicos da habitação em conjunto, neste caso com as regras específicas de uma cultura comunista, mas com o desenrolar da narrativa notamos que a preocupação é maior com as pessoas e os seus sentimentos do que com as suas ideias políticas ou sociais. Estas surgem apenas como enquadramento para uma sucessão de revelações interiores e mudanças individuais.
A narrativa não se centra numa personagem apenas, e tenta desenvolver com mais ou menos sucesso as diferentes histórias interligadas. Como é natural, algumas são negligenciadas.
Mas mais importante que o seu aprofundamento, parece ser perceber a forma como as diferentes pessoas "evoluem", fruto da convivência forçada. Destaque para os mais novos, e a forma como absorvem tudo o que se passa à sua volta. Outra personagem, um solitário homem de meia-idade, é recuperada de Talk, uma curta-metragem anterior do realizador sueco.
Nesta sua segunda longa metragem, Moodysson consegue captar bem o ambiente claustrofóbico inerente à vida em comunidade por meio de ângulos apertados e de uma panorâmica nada típica do cinema europeu; assim como o espírito da época, através do tom amarelado da película, e das roupas e banda-sonora a condizer. O resultado é totalmente kitsch, mas em nada desprovido de conteúdo.
Apesar de tomar partido apenas pela felicidade de cada um, o filme hostiliza ironicamente uma ideia romântica de vida à margem da sociedade.

7/10

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sábado, março 18, 2006

Outros: Bertolucci & Bacon

O italiano Bernardo Bertolucci, um dos mais importantes nomes da história do cinema, realizou em 1972 aquele que é o seu título mais famoso, e um dos mais geniais filmes de sempre. O Último Tango em Paris segue os encontros em Paris de Jeanne e Paul, um americano de férias após o suicído da mulher, interpretado de forma brilhante por Marlon Brando.

Desde os momentos iniciais, o realizador deixa bem claro a sua inspiração nas obras do pintor irlandês Francis Bacon para a elaboração deste filme, ao ilustrar o genérico com duas telas deste com representações de duas figuras, uma masculina e outra feminina.

Mas esta influência é visível em toda a película, tanto na caracterização das persongens (a figura de Paul é notavelmente imaginada segundo os auto-retratos do pintor), como na construção dos ambientes, procurando igualar as cores e a iluminação das criações de Bacon, através da cinematografia de Vittorio Storaro.

A pintura do irlandês assenta numa desfiguração do real, criando um novo conceito de beleza através da fealdade retratada. Da mesma forma, Bertolucci, através de uma relação puramente baseada na atracção sexual que arrasa com as convenções morais e sociais, cria algumas das mais fascinantes imagens da sétima arte.

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quinta-feira, março 16, 2006

Crítica: Last Life in the Universe (2003)


Last Life in the Universe
Pen-ek Ratanaruang, Tailândia, 2003

De um dos países do continente asiático com menor expressão a nível cinematográfico, chega-nos uma história centrada em duas pessoas cujos caminhos se cruzam por breves momentos, após ambos terem vivido trágicos acontecimentos pessoais.
Kenji é um bibliotecário japonês na Tailândia. A sua vida vazia e sem sentido leva-o a ser dominado por mórbidas tendências suicídas. Uma noite, enquanto vagueia pela noite, fugido do seu apartamento, assiste a um impressionante acidente, envolvendo duas jovens irmâs, Noi e Nid (as actrizes, e também na realidade irmâs, Sinitta e Laila Boonyasak), que os ligará.
A mais jovem estrela do cinema nipónico, Tadanobu Asano é o escriturário introspectivo e silencioso, cujo dia-a-dia pacato sofre uma reviravolta inesperada. A sua interpretação é mais uma vez prova da sua versatilidade e imensa capacidade representativa. Muito nos é dito sem palavras, como quando o vemos em meticulosas arrumaçôes ou em incomodativos contactos com outras pessoas.
Totalmente oposta, é a figura de Noi, a jovem tailandesa, cuja maneira de ser descontraída e calorosa, assim como perigosos conhecimentos, servem de contraponto ideal para as inibições de Kenji.
Para aliar à diferença de personalidades, a barreira da língua também permite alguns momentos desconfortáveis. O que nos leva ao ùnico ponto fraco do filme. Imersa nas mentes das personagens, a narrativa estagna, criando situações algo aborrecidas.
As referências ao cinema japonês não são inocentes, Last Life in the Universe vai buscar inspiração aos dramas interiores individuais nipónicos (e por remissão, também aos coreanos) filmados num estilo contemplativo, onde ao espectador nem tudo é explicado, sendo este obrigado a associar gestos e reacções para obter emoções e respostas nem sempre concretas ou definitivas, como é exemplificativo o enigmático encerramento.
Perto do final ainda, faz uma aparição, enquanto um cómico yakuza, o realizador Takashi Miike.
O cinematógrafo australiano Cristopher Doyle mostra que não guardou todos os seus segredos para os filmes de Wong-Kar Wai, e mais uma vez produz um trabalho de cores e luzes admirável, ao dar a cada ambiente um tom próprio que se transmite ao espectador. Perfeito na forma como acentua o antagonismo latente entre as personagens principais. O apartamento azul de Kenji arrepia-nos pela sua impessoalidade, assim como o casarão de Noi nos acolhe com os seus tons terra. Visualmente toda a película é dominada pelo bom-gosto e estilo dos locais e das imagens.
No seu quarto trabalho atrás das câmaras, o tailandês Pen-ek Rataranuang mostra uma maturidade fora do comum. Esta qualidade verifica-se, tanto na construcção da história e na atenção aos pormenores, como no domínio da técnica e na intenção de experimentar. É de sangue novo que se fala, e são estas promessas que nos deixam espectantes.

8/10

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terça-feira, março 14, 2006

Crítica: Dead Man's Shoes (2004)


Dead Man's Shoes
Shane Meadows, Reino Unido, 2004

Após um longo período passado como militar, um homem regressa à sua aldeia natal, no interior briânico, para se vingar daqueles que abusaram do seu irmão deficiente mental.
Os seus alvos são um grupo de pequenos gangsters que se dedicam à venda e consumo de droga. Enquanto que na sua maioria estes são algo patéticos e por vezes até cómicos na sua estupidez, é no proclamado líder do bando que reside a personalidade mais agressiva, arrastando todas as outras mentes fracas para as suas contendas violentas.
Da inutilidade das suas vidas, resta-lhes implicar com Anthony, indefeso após a partida do irmão Richard.
O filme é dominado pela melancolia que consome a personagem principal, apoiando-se para tal, de forma algo excessiva e nem sempre eficaz, no tom introspectivo facultado pelas canções acústicas que ilustram as paisagens rurais por onde esta vagueia, sempre na companhia do seu semelhante.
Elemento primordial a esta intenção é sem dúvida a interiorização com que Paddy Considine interpreta o irmão vingador, dotando o seu rosto de expressões de raiva, dor e frustação. É sinistra a forma como leva avante a sua missão silenciosa e determinada.
Visualmente a película é dominada pelos verdes das colinas e os céus límpidos do campo. O realizador Shane Meadows recorre a efeitos que não são verdadeiramente inovadores nem conseguem disfarçar algumas limitações a nível de diálogos ou enredo, mas servem para incutir alguma frescura na narrativa, nomeadamente o preto e branco dos flashbacks ou o efeito de câmara na mão nas cenas de interiores, em que os actores interagem algo improvisadamente.
Perto do final, o argumento dá um passo em falso ao optar por uma reviravolta algo previsível e nada original.
Dead Man's Shoes deambula entre géneros, não se rotulando definitivamente, um pouco ao estilo do também britânico 28 Days Later. Centrado no drama de Richard, por vezes ameaça tornar-se num slasher, apesar de aproveitar apenas algumas das suas características.

6/10

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domingo, março 12, 2006

Crítica: Rois et Reine (2004)


Rois et Reine
Arnaud Desplechin, França, 2004

Aquele que foi provavelmente o mais aclamado filme francês do ano, traz-nos a história de duas pessoas em momentos de mudança na sua vida.
Nora é directora de uma galeria de arte, e encaminha-se para o seu terceiro casamento. Apesar de não sentir amor pelo seu par, este oferece-lhe conforto e dedicação sem exigir nada em troca, aceitando ainda como seu o filho que esta trás de uma relação anterior. A notícia de que o seu pai se encontra em estado terminal obriga Nora a um regresso a casa que lhe trará revelações e lembranças algo desagradáveis.
Ismael é um talentoso, mas desinteressado, violinista. Internado numa clínica psiquiatrica pela sua família, não necessita de muito para se exaltar e disparar em todas as direcções. A saída para uma vida sem objectivos parece passar pelo afecto que ainda possui por Nora, e consequentemente pelo filho desta, Elias.
Liga-os um namoro anterior, e a necessidade de encontrarem um rumo para a felicidade.
Emmanuelle Devos consegue mostrar os vários lados da sua personagem, uma mulher com especial tendência para se fazer de vítima, através de uma fragilidade na voz que, na verdade, esconde uma vontade enorme de ser bem sucedida mesmo que isso implique apagar umas quantas recordações incómodas.
Mathieu Almaric faz da sua personagem um ser explosivo e expressivo, mas ao mesmo tempo desesperado e à deriva, sem verdadeiros elos de ligação. Além de inocente na sua rebeldia e cruel na sua distanciação, Ismael consegue também ser cómico na sua descoberta pessoal.
As duas personalidades são dotadas de uma grande complexidade, para a qual contribuem as personagens secundárias, fazendo-se bom uso das duas horas e meia de duração da película para as desenvolver convenientemente.
Ambos os actores principais já haviam colaborado anteriromente com o realizador Arnaud Desplechin. Este, por seu lado, consegue um mais que satisfatório equilíbrio entre as duas faces do drama, a comédia e a tragédia. O filme adapta-se às variações de ambientes e disposições, usando diferentes ritmos de narrativa, um mais dinâmico, rico em cortes dentro das cenas; e outro com planos mais alongados, que visam nos absorver nos sentimentos espelhados. O domínio de cada cena por uma tonalidade específica, e as referências a temas como a mitologia, são instrumentos através dos quais o realizador evita que o espectador se sature de tão longo enredo.

7/10

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sexta-feira, março 10, 2006

A bela do dia: Catherine


Um modelo de beleza clássica, Catherine Deneuve é provavelmente das mais populares e, simultaneamente, mais talentosas actrizes a abençoar com a sua presença a história do cinema. Dotada de longos cabelos louros e um corpo curvilíneo, Catherine conta com mais de 45 anos de actividade constante e sempre ao mais alto nível, contribuindo para isso uma escolha acertada e bastante diversificada das participações e dos colaboradores, entre eles realizadores como François Truffaut, Tony Scott, Manoel de Oliveira, Lars von Trier ou Rauol Ruiz, que nunca a afastaram verdadeiramente das principais montras mundiais e impediram o seu declínio ou esquecimento. É, no entanto, na década de 1960 que atinge o estrelato e também os seus maiores feitos profissionais, com as suas aparições em Les Parapluies de Cherbourg de Jacques Demy, Repulsion de Roman Polanski e Belle de Jour de Luis Buñuel. Este último é, pessoalmente, um dos mais marcantes. Catherine interpreta a jovem esposa de um médico promissor, que se vê dividida entre a paixão declarada deste e os seus emergentes desejos sexuais. Lentamente Geneviève é absorvida pela vida dupla em que mergulha diariamente.
Aqui, como nos restantes, a sua actuação é sublime e é difícil não ser contagiado pelo charme emanado.
Venerada pelos cinéfilos, celebrada pelos críticos, Deneuve é sem dúvida uma figura incontornável.

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Crítica: Good Night and Good Luck (2005)


Good Night and Good Luck
George Clooney, EUA, 2005

O título refere-se à expressão utilizada, noite após noite, pelo pivot da CBS, Edward R. Murrow, ao despedir-se dos espectadores no final de cada emissão de um dos seus programas.
Durante anos, Murrow foi apresentador de “Person to Person”, dedicado a entrevistas de figuras célebres da altura, assim como do mais virado para a investigação jornalística “See it Now”, deixando a sua marca não apenas pelo uso da sua frase típica, mas também pela qualidade e rigor das transmissões. O filme assinala bem a diferença entre os dois programas, sendo notória a necessidade do primeiro para a sobrevivência do último.
É através deste que Murrow aborda a problemática, então emergente, da caça às bruxas levada a cabo pelo senador Joseph McCarthy. Na sua fase mais crítica, os inquéritos eram dirigidos a todo aquele que fugisse ao ideal patriota, sendo os mesmos consequentemente acusados de "comunismo" (!) e conspiração contra o Estado. Este momento marcante da história recente dos Estados Unidos é aqui capturado brilhantemente, com óbvio foco neste meio de comunicação social.
Paralelamente é aflorado o quotidiano dos restantes membros da redacção, assim como a relação entre os jornalistas e o chefe da cadeia televisiva norte-americana.
David Strathairn é impressionante ao encarnar a personagem principal, um defensor das liberdades e garantias do cidadão comum. O nervosismo contido e a motivação interior do jornalista vêem ao de cima através da movimentação corporal do actor. A complexa figura é construída com simples olhares, posicionamentos de mãos ou principalmente na forma como o discurso é debitado, directo e conciso.
Por seu lado, George Clooney, que também figura ao lado de Strathairn, mostra-se bastante seguro neste seu segundo esforço atrás das câmaras. Tal como em Confessions of a Dangerous Mind, Good Night and Good Luck ilustra a promiscuidade entre os meios dos media e do poder político, neste caso como uma arma contra os abusos do segundo. A realização é bastante positiva tanto na escolha dos ângulos como na dinâmica imprimida às cenas, apesar da limitação espacial.
De realçar ainda o excelente preto e branco, obra do cinematógrafo Robert Elswit, e os interlúdios musicais.
O final,no entanto, leva-nos a questionar como será o episódio da próxima semana.

8/10

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segunda-feira, março 06, 2006

Crítica: Crash (2005)


Crash
Paul Haggis, EUA, 2005

O argumentista de Million Dollar Baby (e também de Walker, Texas Ranger!), Paul Haggis acumula as funções de realizador pela primeira vez neste drama vencedor do Óscar de melhor filme do ano.
A película interliga um conjunto de pequenas histórias que, de diferentes maneiras, abordam as temáticas do racismo e da desigualdade social.
A diversidade existente nos Estados Unidos permite um mínimo de credibilidade aos variados acontecimentos estruturados pelo argumento, também vencedor de uma estatueta. No entanto, a certa altura o filme perde-se na complicada teia que ele próprio tece, envolvendo-se em intrigas de menor relevância ou qualidade.
A estrutura do filme não é inovadora, mas resulta na maior parte das sequências, devido à boa montagem utilizada. A referência obrigatória e talvez a mais óbvia desta obra é Magnólia; também em pormenores como a música do título ou a voz-off podemos encontrar essa semelhança.
Apesar da estrutura episódica não permitir que nenhuma das personagens assuma preponderância sobre as outras, cada cena, especialmente na fase inicial, mostra-nos um conjunto distinto de ideias que prendem o espectador.
Curiosamente são as personagens cujo discurso é mais radical que melhor resultam, com destaque para as representadas por Matt Dillon, Sandra Bullock e o estreante Ludacris, benefíciando dos diálogos certeiros e da atitude politicamente pouco correcta com que tratam as questões.
Sem tomar partidos, o filme aproxima-se do ideal Do The Right Thing de Spike Lee, mas sem nunca atingir a sua qualidade ou originalidade.
Após um arranque a todo o gás numa sequência de cenas que culmina no roubo de um SUV, Crash abranda o ritmo mostrando uma série de vinhetas em que as personagens cada vez mais se prendem, e perdem, nos seus estériotipos, nomeadamente nas figuras de um trabalhador latino e de um comerciante árabe.
Os pontos fortes de Crash não sobrevivem à sua duração total e nos derradeiros momentos o filme descamba para o melodrama banal. A realização de Paul Haggis nunca consegue ser mais que competente.

6/10

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domingo, março 05, 2006

Crítica: Memories of Murder (2003)


Sarineui Chueok
Joon-ho Bong
, Coreia do Sul, 2003

Nos finais da década de 80, a Coreia do Sul ainda vivia sob a sombra de uma ditadura militar, e essa influência fazia-se sentir particularmente nos meios rurais, onde a polícia atropelava a seu belo prazer os direitos dos cidadãos e qualquer manifestação estudantil era reprimida violentamente.
É já nos derradeiros momentos desta época, em que o descontentamento das populações se começa a notar e uma nova era ameaça brotar, que se desenrola a narrativa.
Uma série de violações e homicídios assombram a pacata vila de Hwaseong. Os detectives encarregues Park e Cho, na ânsia de descobrir o responsável, recorrem às mais variadas técnicas para incriminar os suspeitos, desrespeitando totalmente qualquer regras de investigação. Atraído pelo mistério e notoriadade que começam a envolver o caso, surge vindo da capital Suh, um jovem detective, competente e disposto a encontrar o culpado.
Baseado em acontecimentos verídicos, a estreia na realização de Bong Joon-Ho, reveste-se de drama policial para mostrar uma realidade que atormentou o país até recentemente. É no entanto o tom de comédia negra que domina a película e a eleva entre muitos títulos do género.
Nunca caindo no ridículo, Memories of Murder exagera e satiriza os comportamentos das entidades no poder, principalmente através do retrato de Park e Cho. Song Kang-Ho, um rosto familiar do novo cinema coreano, nomeadamente de The Quiet Family, Joint Security Area e Sympathy for Mr. Vengeance, revela-se simplesmente brilhante; ao mesmo tempo, inocente na sua ignorância e intolerável na sua brutalidade, mas sempre com expressões que só por si levam o espectador ao riso; eficazmente auxiliado pelos outros dois actores que encarnam os restantes agentes policiais, um puramente força física e o outro inteligência e perspicácia mas também força de vontade inabalável.
Nas partes dramáticas, o filme nunca resvala para o melodrama sem gosto, mas também não consegue atingir a acutilãncia das partes cómicas. É, na verdade, muito certeiro na forma como reveste as suas personagens de uma complexidade extra ao mostrar-nos momentos das suas vidas privadas, afectadas pelos referidos acontecimentos.
Em fase de crescimento acelerado, a indústria cinematográfica coreana ameaça tornar-se um dos principais focos de interesse do continente asiático.

7/10

posted by Diogo Fonseca at 15:44 0 comments

sábado, março 04, 2006

Zapping: Big Trouble in Little China (1986)

Jack Burton: When some wild-eyed, eight-foot-tall maniac grabs your neck, taps the back of your favorite head up against the bathrroom wall, looks you crooked in the eye and asks you if ya paid your dues, you just stare that big sucker right back in the eye, and you remember what ol' Jack Burton always says at a time like that: "Have ya paid your dues, Jack?" "Yessir, the check is in the mail."

Big Trouble in Little China
John Carpenter, EUA, 1986

posted by Diogo Fonseca at 18:29 0 comments

Clássicos: Rebel Without a Cause (1955)


Rebel Without a Cause
Nicholas Ray, EUA, 1955

A familia tradicional, seio da aparente normalidade da sociedade americana dos anos 50, deu origem a vários exemplos de descontentamento por parte da nova geração.
Entre eles está Jim Stark, um adolescente em constante conflito consigo mesmo e com aqueles que o rodeiam, iconizado por James Dean (numa altura em que Brando e Presley se afirmavam como porta-vozes desta renovação cultural).
A familia de Jim, cuja solução para os problemas do filho é mudar de casa, é a causa da sua revolta apontada em todas as direcções. Uma mãe e avó dominantes sobre um pai fraco e submisso representam o ambiente hostil de que Jim procura se livrar. Na mesma esquadra onde Jim é detido por vadiar bêbedo, estão outros dois jovens, Judy e Plato, também eles exemplos de instabilidade emocional devido ao ambiente em que foram criados. As sugestôes de que Judy mantém com o pai uma relação demasiado íntima, e que Plato tem uma atracção pela personagem principal são hoje notórias, no entanto estes aspectos não podiam ser amplamente explorados na altura em que foi realizado, daí a riqueza de alguns diálogos, pois permitem retirar algo mais significante do que aquilo que é realmente dito.
Este trio de jovens virá, perto do final a constituir uma espécie de nova familia, afectada pelos ambientes em que cresceram, mas desesperada por encontrar um momento de felicidade, mesmo que o seu lar seja uma mansão abandonada em ruínas.
É na personagem de Dean que se centraliza a história. Este, baseando-se numa representação teatral, consegue mostrar a complexidade da personagem, o seu desespero ao sentir-se preso a um mundo em que não se enquadra e perdido por não encontrar um refúgio desse mesmo mundo; mas também a determinação de encontrar a felicidade e a coragem ao lutar contra todas as adversidades.
O argumentista e realizador Nicholas Ray faz uso das cores berrantes, principalmente nas roupas de Dean, para mostrar a fúria de viver sugerida pela tradução nacional, e de irreverentes ângulos de câmara como aquele em que Jim, deitado da cabeça para baixo no sofá vê a mãe descer as escadas.
Apesar de algumas situações hoje em dia parecerem algo deslocadas, como um James Dean de 24 anos a sair de casa para a escola com o lanche na mão, ou a trágica apoteose final, Rebel without a cause conserva a sua força através da rebeldia que a própria pelicula constituia.
Morrendo um mês antes da estreia, Dean entrava assim para a galeria dos desaparecidos antes do seu tempo.

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Crítica: Vou Para Casa (2001)


Je rentre a la maison
Manoel de Oliveira, Portugal/França, 2001


Com quase um século de vida, é por si só um facto admirável que Manoel de Oliveira mantenha ainda clareza de mente e força de espírito para continuar a realizar filmes, ano após ano.

Esta realidade, no entanto, não implica necessariamente qualidade em todas as suas obras, aliás como acontece com todos os autores mais prolíficos cujos projectos muitas vezes não têm tempo de amadurecer.

Esta acaba por ser a maior falha de Je Rentre a la Maison, realizado em 2001 e mais uma vez produzido por aquele que parece ser o único a fazê-lo em Portugal, Paulo Branco.

O filme, maioritariamente falado em françês, e totalmente rodado em Paris, centra-se na figura de Gilbert Vance, um actor de meia-idade, que após uma actuação recebe notícias chocantes.

A premissa não é complexa, mas o filme perde-se nos seus apartes semi-cómicos, que não nos permitem mais que esboçar um sorriso, e na lentidão com que nos mostra os acontecimentos.

Exemplo disso são os longos excertos de representações teatrais de Exit The King de Eugéne Ionesco e The Tempest de William Shakespeare, assim como um ensaio para uma realização cenimatográfica de Ulysses, escrito por James Joyce.

Muitas cenas desnecessárias e outras prolongadas em demasia afastam o espectador da verdadeira tragédia que constitui a narrativa.

Apesar disto, Michel Piccoli consegue ser simplesmente sublime ao mostrar a força interior da personagem após tais eventos marcantes, e a sua vontade de seguir em frente mesmo sem se entregar a saídas fáceis, numa actuação que lhe valeu uma nomeação pela Academia Europeia de Cinema.

Fazem ainda breves aparições Catherine Deneuve, cuja postura magistral obscurece a nulidade do seu papel, assim como John Malcovitch, igual a si mesmo, longe de conseguir dotar a sua personagem de características próprias; e as portuguesas Leonor Baldaque e Leonor Silveira, sem intervenções dignas de memória.

Não ultrapassando a hora e meia, Je Rentre a la Maison consegue, ao mesmo tempo, parecer longo e demorado nas suas deambulações assim como superficial e pouco eficaz por não aprofundar convenientemente as emoções transmitidas.

No final permaneçe a sensação de que este poderia ter sido um grande filme.

6/10

posted by Diogo Fonseca at 17:43 0 comments

quinta-feira, março 02, 2006

Clássicos: Bob Le Flambeur (1955)


Bob Le Flambeur
Jean-Pierre Melville, França, 1955

Bob não consegue parar de jogar.
Bob Montagne é um antigo pequeno criminoso de meia-idade que decide dar um último golpe antes de se retirar.
O primeiro film noir do realizador francês Jean-Pierre Melville, uma homenagem aos gangsters norte-americanos, acabou por ser ele próprio uma das principais influências da nova geração de realizadores franceses surgida nos inícios dos anos sessenta, conhecida como Nouvelle Vague.
Após uma vertiginosa descida ás difíceis ruas de Montmartre, é-nos apresentado a personagem principal e aqueles que com ele convivem.
Um desconhecido Roger Duchesne encarna de forma brilhante Bob, dotando-o de todas as características que constituem a sua personalidade complexa e permitindo-nos compreender a razão do seu ser.
À sua volta vários jovens actores ajudam a criar o habitat natural em que se move este homem da noite. Entre estas personagens encontramos Paolo, um inocente aprendiz de bandido, Anne, uma rapariga fascinada pelo perigoso mundo do crime e ainda o Inspector da Polícia dividido entre o dever e a amizade que o liga a Bob.
Os acontecimentos desenrolam-se numa sequência de diálogos corriqueiros disparados a grande velocidade, e grandemente improvisados. Uma liberdade que agradava aos novos aficionados do grande écran, que fizeram das ruas os seus palcos.
Na parte final o filme desenvolve para a planificação e execução de um assalto a um Casino, característica dos Capers, tipo de filmes bastante popular e que anda de mãos dadas com muitas desventuras criminosas. O argumento cabe a Auguste le Breton, um dos maiores do género.
Carregado de estilo, inerente tanto ás personagens como aos locais e situações, Bob Le Flambeur inaugurou uma sequência de filmes do realizador francês que culminariam no clássico Le Samouraï de 1967.

posted by Diogo Fonseca at 20:28 0 comments

A bela do dia: Tippi


Descoberta por Alfred Hitchcock, quando este a viu num anúncio de televisão, a história de Tippi Hedren enquanto actriz resumia-se a uma participação num filme menor ainda enquanto criança.
A película de 1963, The Birds trouxe-a para a primeira linha da sétima arte, colocando-a no meio de um ataque furioso e aparentemente injustificado desses animais alados a uma pequena povoação piscatória.
Mais tarde, Tippi viria a dar o nome da sua personagem neste filme à sua filha, a também actriz Melanie Griffith.

Depois deste filme, Tippi viria novamente a colaborar com o cineasta inglês em mais um filme, Marnie, deixando assim a sua curta marca na história do cinema.

Apesar de nem sempre celebrada pelas suas representações, a sua beleza clássica e elegânca não poderiam ser ignoradas.
Talvez o último grande filme do mestre do suspense, The Birds demonstra bem, na forma como a filma, a admiração que também o realizador tinha pela ex-modelo.

posted by Diogo Fonseca at 15:02 0 comments

Crítica: O Fantasma (2000)


O Fantasma
João Pedro Rodrigues, Portugal, 2000

Na sua estreia no formato longa-duração, o realizador João Pedro Rodrigues, do mais recente Odete, traz-nos um conto do submundo lisboeta.
Ricardo Meneses é Sérgio, um jovem que trabalha na empresa de recolha de lixo da Câmara, percorrendo durante a noite as ruas da cidade. Numa das suas tarefas, Sérgio desenvolve uma grande atracção física por um homem que arranja uma mota, de tal forma que só descansará quando concretizar os seus desejos carnais.
Após várias experiências sexuais vividas, e estando totalmente absorvido nas suas fantasias, como um espectro Sérgio desaparece na noite.
Em O Fantasma os diálogos são escassos, o que parece ter sido uma escolha acertada, pois se por um lado as intervenções dos participantes são bastante limitadas e inconsequentes, por outro a verdadeira força motora da personagem principal reside nas suas acções e nas expressões corporais do jovem actor que a interpreta.
O reduzido núcleo de actores de apoio não se revela o suficiente para se considerar totalmente necessário e sendo apenas relevantes nas suas interacções com o protagonista.
O estático trabalho de câmera incute no resultado final uma sensação de lentidão que poderá levar o espectador a desinteressar-se pelas viagens emocionais do jovem homem-do-lixo. Tal efeito também pode ser deduzido do ambiente nocturno que domina a acção e dos locais escuros onde esta se desenrola, que assombram a obra com um tom negro carregado.
No entanto, nunca passarão despercebidos os encontros em primeiro grau da personagem do título com outras figuras desconhecidas, assim como as suas extasiantes aventuras consigo mesmo.
Definitivamente não sendo o filme mais fácil de assistir, nem sequer o melhor português dos últimos tempos, O Fantasma é no entanto uma visão muito própria de uma parte da sociedade e uma criação original no panorama cinematográfico nacional.

5/10

posted by Diogo Fonseca at 14:37 0 comments

quarta-feira, março 01, 2006

Crítica: Broken Flowers (2005)


Broken Flowers
Jim Jarmush, EUA, 2005


Após o episódico
Coffee And Cigarettes lançado em 2003, o realizador norte-americano Jim Jarmush regressa a um enredo mais convencional, no entanto sem se afastar das suas marcas características.

Novamente observamos diferentes culturas interligarem-se através dos vários personagens.

Don é um caucasiano de meia-idade confortável na vida mas solitário, cujo melhor amigo é o seu vizinho Wiston, um caribenho muito bem casado, que aparece em sua casa mesmo sem convite.

O pacato dia-a-dia de Don é abalado quando recebe um misterioso envelope rosa. Instigado pelo seu vizinho, Don parte á procura do seu possível remetente, e ao mesmo tempo á procura de si mesmo.

Apesar de não marcarem presença nomes exteriores ao cinema, como já havia anteriormente Tom Waits por exemplo, Broken Flowers conta ainda com a participação de Jeffrey Wrigth, e Sharon Stone, Jessica Lange ou Tilda Swinton como ex-namoradas de Don.

Bill Murray, que depois do seu regresso aos grandes desempenhos com
Lost In Translation ou The Life Aquatic With teve Zissou, mais uma vez se associa a outro grande nome do universo indie americano, produz mais uma bela actuação; minimalista, bastante controlado e com uma frieza e indiferança perante o exterior que ao mesmo tempo arrepiam e obrigam-nos a esboçar um sorriso.

Tal como nos seus primeiros filmes, em Broken Flowers Jarmush recorre a fade-to-blacks para dividir as cenas, entre elas uma já recorrente em que a personagem principal apenas está, atónito e totalmente alienado.

O ritmo pausado do filme é deliberado, mas torna algo aborrecido o desenvolvimento da história, e com a utilização de uma luz excessiva que quase torna branca toda a imagem, apenas o rosa contrasta e dá uma força exterior ao filme.

Vencedor do grande prémio do júri em Cannes, Broken Flowers fica algo longe da genialidade da sua estreia, ou da originalidade de outros títulos.

6/10

posted by Diogo Fonseca at 16:09 0 comments

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    • Crítica: The Mourning Forest (2007)
    • Zapping: The Lady From Shanghai (1947)
    • Crítica: La Terza Madre (2007)
    • Crítica: La Mujer Sin Cabeza (2008)
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